en-Transição em Família

30/09/2015

Quando há cerca de 7 anos disse aos meus pais que estava a pensar mudar de vida (que na altura imaginava ser despedir-me, vender casa e carro e partir para um Ashram indiano em Itália), a sua reacção foi de surpresa e choque. Como poderia eu abdicar de muito do que havia "conquistado" na vida, que até então me satisfazia e parecia ser tudo o que poderia desejar? A verdade é que acabei por não me despedir na altura, nem ir para Itália, mantendo no entanto a aspiração de transformar a minha vida.

À medida que ia aprofundando a minha experiência e o conhecimento sobre este impulso de mudança, ia-lhes explicando o que sentia e as razões que me levavam a querer esta transição. O que no início lhes parecia ser uma súbita falta de "juízo", particularmente estranha vindo de alguém como eu que sempre fora demasiado "certinho", aos poucos foi-se revelando como uma necessidade premente que não só fazia algum sentido, como também parecia ser cada vez mais inevitável.

Foi com algum espanto e admiração que, na altura em que eu e a Teresa começamos a procurar terra para nós, eles próprios mostraram também interesse em fazê-lo! As motivações que levaram os meus pais a comprar terra, não foram nem são necessariamente as mesmas que as nossas, mas continua a ser inspirador perceber que também eles procuram a mudança e se empenham em garantir uma outra estabilidade e segurança para o futuro.

Tal como sempre aconteceu durante toda a minha vida, os meus pais continuam a apoiar-nos de todas as formas que podem, e têm estado sempre presentes quando é realmente importante, continuando a abdicar muitas vezes do seu próprio conforto e bem-estar. Nem sempre o reconheço, e muitas vezes ainda não o demonstro, mas sinto-me abençoado por ter nascido no seio desta família e estou imensamente grato pelo amor incondicional que continuam a demonstrar, e não apenas por nós...

Se há 7 anos pensava que para seguir um "caminho espiritual" teria que abdicar de tudo, mesmo da família e amigos, cada vez mais descubro que esse caminho pode ser vivido com eles, transcendendo e incluindo, explicando e não assumindo, questionando e procurando sempre aquilo que faz sentido na nossa própria experiência, em vez de inconscientemente seguir o que é esperado de nós. A mudança não só é possível, como não tem quaisquer limites...

Estamos gratos família, por continuarem a querer percorrer este caminho ao nosso lado!

Amamos-vos muito...

Ricardo Gonçalves